Acordo Brasil–EUA
O 4º Acordo Atômico e a venda secreta de tório aos EUA detonam uma CPI histórica — e forçam o Brasil a nacionalizar sua política nuclear com a criação da CNEN.
Visão geral
O ano de 1956 foi um divisor de águas na política atômica nacional com a assinatura do 4º Acordo Atômico Brasil–EUA. O ato, negociado pela Comissão de Exportação de Materiais Estratégicos (CEME), previa a venda de 300 toneladas de óxido de tório aos americanos, mas ocorreu em meio a um forte conflito institucional com cientistas do CNPq, resultando em uma investigação histórica que mudaria os rumos da energia nuclear no Brasil.
Contexto histórico
O Brasil vivia o início do governo de Juscelino Kubitschek, marcado pelo ideal desenvolvimentista e pelo Plano de Metas. Internacionalmente, a Guerra Fria intensificava a corrida nuclear, e os Estados Unidos buscavam garantir o monopólio das matérias-primas radioativas.
Internamente, crescia a tensão entre grupos nacionalistas, que defendiam a soberania sobre o subsolo, e setores pró-EUA, que favoreciam a exportação direta de minérios.
O que aconteceu
- Junho de 1956A CEME, ignorando as diretrizes do CNPq, assina o 4º Acordo Atômico e um contrato secreto para exportação de óxido de tório.
- Denúncias e revoltaA revelação de acordos secretos e a venda de minérios a preços baixos geram indignação na opinião pública e no meio acadêmico.
- CPI da Energia AtômicaO Congresso instala uma Comissão Parlamentar de Inquérito liderada pelo deputado Gabriel Passos para investigar as irregularidades na política nuclear.
- Outubro de 1956Pressionado pelas descobertas da CPI, JK cancela os acordos de prospecção estrangeira e centraliza as decisões com a criação da CNEN.
Impactos
Legado
As investigações e os embates de 1956 definiram a identidade do Programa Nuclear Brasileiro como um projeto voltado para a autonomia tecnológica. Esse período preparou o caminho para a Lei do Monopólio Estatal sobre a energia nuclear e para as futuras parcerias tecnológicas que buscariam o domínio completo do ciclo do combustível.
Curiosidades
Contrato secreto
O contrato de exportação de 300 toneladas de óxido de tório foi assinado em sigilo, sem consulta ao CNPq nem ao Congresso — sua revelação foi o estopim da CPI.
A CPI Gabriel Passos
Liderada pelo deputado Gabriel Passos, a CPI da Energia Atômica tornou-se referência histórica por expor a interferência estrangeira e redirecionar a política nuclear do país.
Nasce a CNEN
Em outubro de 1956, ainda sob pressão da CPI, JK cria a Comissão Nacional de Energia Nuclear — que até hoje regula, fiscaliza e autoriza toda atividade nuclear no Brasil.
Referências
- 01ANDRADE, Ana Maria Ribeiro de. A opção nuclear: 50 anos rumo à autonomia. Rio de Janeiro: MAST, 2006.
- 02PATTI, Carlo. O programa nuclear brasileiro entre passado e futuro. Boletim Meridiano 47, 2013.
- 03SANTOS, Tomé Sudário Gomes Ferraz dos. A política nuclear brasileira até 1964. Dissertação de Mestrado, PUC-SP, 2007.
- 04Relatório da CPI da Energia Atômica (Comissão Gabriel Passos). Câmara dos Deputados, 1956–1958.
- 05GONÇALVES, Odair Dias. Programa Nuclear Brasileiro: Passado, Presente e Futuro. Apresentação CNEN.