Acordo Nuclear Brasil–Alemanha
Em 27 de junho de 1975, Brasil e RFA assinam o projeto nuclear mais ambicioso da história brasileira: a transferência do ciclo completo do combustível nuclear.
Visão geral
Em 27 de junho de 1975, o Brasil e a República Federal da Alemanha (RFA) assinaram o “Acordo sobre Cooperação no Campo dos Usos Pacíficos da Energia Nuclear”. Este foi o projeto nuclear mais ambicioso da história brasileira, prevendo não apenas a construção de usinas, mas a transferência inédita da tecnologia de todo o ciclo completo do combustível nuclear, incluindo o enriquecimento de urânio e o reprocessamento.
Contexto histórico
O cenário era de grande vulnerabilidade energética devido ao “Choque do Petróleo” de 1973, que encareceu drasticamente a principal fonte de energia do Brasil. Politicamente, o governo Geisel adotava o “Pragmatismo Responsável”, buscando autonomia externa e o projeto de transformar o Brasil em uma potência mundial.
Cientificamente, o país sofreu um revés em 1974, quando os EUA suspenderam novos contratos de fornecimento de urânio enriquecido, evidenciando a dependência tecnológica brasileira. Além disso, havia uma preocupação geopolítica com o avanço da Argentina, que iniciara a operação de sua primeira usina (Atucha I) em 1974.
O que aconteceu
- Junho de 1974O Brasil inicia sondagens diplomáticas com países como França e Alemanha para buscar parcerias tecnológicas.
- Setembro de 1974Iniciam-se negociações secretas em Brasília com representantes alemães.
- Dezembro de 1974O governo brasileiro cria a Nuclebrás para gerenciar a nova indústria nuclear estatal.
- 27 de junho de 1975O acordo é formalmente assinado em Bonn, prevendo a compra de pelo menos oito reatores e as fábricas de enriquecimento e reprocessamento.
- Fevereiro de 1976Brasil, Alemanha e AIEA assinam o acordo de salvaguardas para garantir o uso pacífico da tecnologia.
Impactos
Legado
O acordo teuto-brasileiro resultou na construção das usinas de Angra 2 e Angra 3 e na criação da Nuclep. No entanto, as dificuldades em receber tecnologias sensíveis e a pressão internacional levaram os militares a criar, em 1979, o “Programa Paralelo” — um projeto secreto e autônomo para garantir o enriquecimento de urânio sem restrições estrangeiras.
Curiosidades
Ameaças de embargo
Para tentar impedir o acordo, o governo Carter (EUA) chegou a ameaçar o bloqueio do acesso do Brasil aos mercados financeiros norte-americanos e a retirada de tropas americanas da Alemanha.
A “bomba” no horizonte
Embora o discurso oficial fosse pacífico, setores militares viam no domínio do ciclo do combustível a “quintessência do Brasil Grande”, permitindo que o país pudesse fabricar armas nucleares futuramente, caso necessário.
O fim da “caixa-preta”
Geisel justificou o acordo com a Alemanha como uma forma de evitar a compra de “caixas-pretas” lacradas (como era o reator de Angra 1 fornecido pelos EUA), exigindo o conhecimento total do que havia dentro da tecnologia.
Ciclo completo
O acordo previa desde a mineração e conversão do urânio até o reprocessamento do combustível queimado — algo inédito para um país em desenvolvimento na época.
Referências
- 01SOUZA, Fabiano Farias de. Acordo Nuclear Brasil-Alemanha Federal de 1975. Dissertação de Mestrado, UERJ, 2009.
- 02PATTI, Carlo. O programa nuclear brasileiro entre passado e futuro. Boletim Meridiano 47, 2013.
- 03GONÇALVES, Odair Dias. Programa Nuclear Brasileiro: Passado, Presente e Futuro. Apresentação CNEN.
- 04ROCHA FILHO, Alvaro; GARCIA, João Carlos Vitor. Renato Archer: Energia atômica, soberania e desenvolvimento, 2006.